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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Trump tem razão, eis todos os abusos cristianofóbicos

 Mauro Faverzani

 


Uma coisa é certa: a ordem executiva sobre as redes sociais assinada pelo presidente Trump não constitui absolutamente um atentado à liberdade de expressão, por outro lado, é verdade o contrário, constitui uma tutela desta. Era necessária. Em poucas palavras, não se veta Facebook, Twitter, Google e outros de publicar qualquer gênero de textos, comentários, imagens, vídeo; mas, se decidissem de obscurecer ou censurar algum, a eles considerável desagradável, de suspender os usuários ou apagar o seu post, sobre isso deveriam responder, poderiam ser levados a julgamento, antes que desfrutar de um livre e total arbítrio como tem acontecido até agora. A Fcc, a agência central americana das comunicações, foi encarregada neste sentido de rever as regras de um jogo até agora sem regras, das quais as redes sociais demonstraram aproveitar com esperteza e excessiva desenvoltura, mas, o que é pior, segundo a modalidade por nada neutral, nem tanto menos imparcial. A ponto de pretender carimbar como fake news até mesmo uma opinião de Trump, que tinha se limitando a evidenciar o risco de potenciais fraudes no caso em novembro, para as eleições presidenciais americanas, se o voto fosse por correio causa Coronavírus, como defendido pelo governador da Califórnia, Gavin Newaom, coincidentemente um democrata, imediatamente seguido pelos outros seus companheiros de partido.

Trump rapidamente esclareceu, corretamente: “Estamos aqui hoje para defender a liberdade de expressão de um dos maiores perigos”, disse. As redes sociais “tinham um poder incontrolado”, mas “não podemos permitir que isso aconteça”, especialmente diante de uma checagem de fatos, de um controle exercitado por um altamente questionável “ativismo político” e moral quando não de um apoiador atrevido. Até mesmo Mark Zuckerberg, fundador e administrador delegado de Facebook, compartilhou a decisão do presidente americano, afirmando publicamente, durante uma entrevista: “Creio fortemente que Facebook não deva ser árbitro da verdade de tudo isso que as pessoas dizem online. Em geral, as sociedades privadas, especialmente as plataformas, provavelmente não deveriam estar na posição de fazê-lo”. Como até agora, infelizmente, tinha ao invés acontecido. Como muitos bem sabem, penalizados somente pelo fato de ter expresso pareceres, comentários, opiniões simplesmente fora do coro, “pior” ainda se de acordo com a moral católica. Algum exemplo? No mês de julho passado, na França, a honorável Emmanuelle Duverger em Ménard, fiel praticante e pro-family convicta, teve sua conta bloqueada arbitrariamente pelo Twitter e o seu tweet apagado, simplesmente por ter “ousado” criticar Greta Thunberg, depois de ter escutado o seu discurso na Assembleia Nacional. Por outro lado, ninguém protegeu a parlamentar das ameaças, também de morte, recebidas exatamente depois da opinião por ela expressa. Faz dois anos que um dossiê especial, publicado por Project Veritas, recolhendo os testemunhos de vários funcionários do Twitter, denunciou a sistemática censura atuada no confronto com escritos mais “conservadores”, sem que estes pudessem nem mesmo dar-se conta, através de um sistema denominado “Blocco nell’ombra”: as publicações “desagradáveis” ou “incômodas” eram simplesmente excluídas da rede, sem o conhecimento, pelos fantásticos “agentes de revisão dos conteúdos”.  Também o Facebook não é ausente de deslizes sobre este traiçoeiro terreno: como em 2018, quando bloqueou a coleta de fundos para o filme pro-lifeRoe vs. Wade”, realizada para mostrar a verdadeira história do caso judiciário, acontecido em 1970. A dar o alarme, na época, foram nada menos que dois atores de Hollywood, o prêmio Oscar Jon Voight e o produtor Nick Loeb.

O fenômeno, em todo caso, não é absolutamente novo: já em 2011, o estudo intitulado “True Liberty in a New Media Age: An Examination of the Threat of Anti-Cristian Censorship and Other Viewpoint Discrimination on New Media Platforms”, ordenado pela Nrb-National Religious Broadcasters com sede na Virgínia, nos Estados Unidos, demonstrou a verdadeira e própria censura feita online para com qualquer conteúdo cristão ou também religioso mais em geral.

Em particular, o estudo destacou a decisão, assumida pela Apple em novembro de 2010, de bloquear o app Manhattan Declaration somente por ter definido, em força das próprias convicções cristãs, imoral o comportamento homossexual. Pelo mesmo motivo, poucos meses mais tarde, em março de 2011, a Apple censurou também o app Exodus International, iniciativa cristã dedicada a ajudar as pessoas a abandonar a própria vida homossexual. E ainda, a mesma sorte em julho de 2011 em relação a Christian Values Network: Apple retirou iTunes do portal, que contribui para financiar as organizações caritativas, acusando de ser muito crítico para com as iniciativas pro-Lgbt. Acabaram na “lista negra” do estudo também Google, por ter rejeitado de aceitar uma publicidade cristã pro-life (mesmo se depois, citado em juízo, tenha sido obrigado a dar um passo atrás e a publicá-la), Facebook, por ter apagado comentários considerados anti-gender e pelas partnership iniciadas com organizações pro-Lgbt, e assim por diante.

Em todo este caos, é preciso tomar nota das desculpas públicas feitas já em abril de 2018 pelo grande chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, pela censura feita pelas suas redes sociais em relação a conteúdos católicos. No curso da sua audiência diante do Congresso americano, para responder a milhões de dados pessoais cedidos a sociedades terceirizadas para fins eleitorais e comerciais, Zuckerberg admitiu que a sua empresa tinha “cometido um erro”, bloqueando o anúncio de um curso de teologia católica, promovido pela Universidade Franciscana de Steubenville, “ré” somente por ter publicado a imagem de um crucifixo, considerado “excessivamente violento” e “sensacionalista”. Diante deste “ato de contrição”, o senador Ted Cruz do Texas fez notar como no Facebook tivessem sido já “bloqueados mais de duas dúzias de páginas católicas” e de conteúdos conservadores, rotulados como “inseguros para a comunidade”. Cruz perguntou ironicamente se tivessem sido removidos, da mesma maneira, também os anúncios de Planned Parenthood e de outras siglas abortistas.

As desculpas de então tornam em todo caso menos suspeitas e mais digna de credibilidade a defesa feita hoje por Zuckerberg da linha adotada pelo presidente Trump em relação às redes sociais. Deve-se esperar, sem ilusões, que se trate de um percurso de frutuosa tomada de consciência ou até mesmo de fecunda conversão, a iniciada pelo fundador Facebook. Esta breve relação de fatos – relação que poderia, querendo, continuar muito – demonstra como o chefe da Casa Branca tenha razões de sobra ao colocar barreiras, estabelecer limites, instituir garantias para todos contra abusos e arbítrios via web. A ordem executiva de Trump deveria ser aprovada em outros Países. Mas, certo, para fazê-lo é preciso que existam líderes com uma consciência...

 

Fonte: https://www.corrispondenzaromana.it/trump-ha-ragione-ecco-tutti-gli-abusi-cristianofobi/

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O que deseja realmente o movimento Black Lives Matter?

 Maurizio Ragazzi

 O autor deste artigo há pouco nos relatou que Shaun King, um ativista de Black Lives Matter, declarou que as estátuas e os vitrais que representam “o homem branco Jesus e a sua mãe européia” [sic!] “devem ser destruídos enquanto forma de supremacia dos brancos”. Este apelo delirante se interpreta sozinho e diz muito sobre os objetivos do movimento (o texto da declaração está reproduzido aqui: Black Lives Matter Activist Wants Statues of “White Jesus” Torn Down Because They’re “Racist”).

A imagem que é normalmente pintada é aquela que, para além das formas extremistas, aqueles que marcham sob o lema Black lives matter (“vidas negras importam”) são motivados pelos mais altos valores de igualdade no gênero humano. Ora, pode ser que entre eles existam efetivamente manifestantes que se limitem a proclamar o devido respeito por todos. Mas seria forçado presumir que a maior parte que repete Black lives matter não saiba a que efetivamente aspire este movimento. As próprias premissas do lema são fantasiosas. Reivindicar que as vidas dos negros contam, quase como se tratasse de uma repentina revelação de uma verdade que não conhecíamos, pressupõe a absurda convicção que as pessoas afro-americanas, enquanto passeiam pacificamente pela rua, sejam tomadas como alvo de policiais brancos que se divertem de modo sádico em atacá-las e, às vezes, a matá-las.

A realidade é bem outra: diferente dos disparos entre civis (incluindo aqueles entre afro-americanos), que não raramente se dão em meio a crianças e pessoas desamparadas, a ocasional violência da polícia (contra os afro-americanos como contra qualquer outra pessoa) acontece depois de crimes ou outros episódios de ilegalidade, pelos quais os supostos responsáveis tinham sido presos (o ex-prefeito de New York Rudy Giuliani recordou que no ano passado foram 9 casos de afro-americanos desarmados mortos em confronto com a polícia (contra mais que o dobro de brancos), comparados a 7500 homicídios de afro-americanos por parte de outros afro-americanos).

Havendo brigas e morte, existem investigações aprofundadas e processos voltados a acertar se a polícia tenha ou não aplicado uma força injustificada.  Portanto, o sistema não é racista, mas pelo contrário é organizado em modo tal que permite que sejam punidos tanto os criminosos quanto os policiais que tenham usado excessiva violência, uma vez que esta tenha sido provada. Em palavras simples, o verdadeiro problema é o crime (e às vezes o abuso de autoridade), certamente não o sistema destinado a sua avaliação e punição.

Além do mais, não parece que quem marcha sob o slogan do Black lives matter esteja realmente convencido que as vidas de todos os negros sem exceção importam. Ignoram-se totalmente as vidas indefesas no ventre de suas mães. E mesmo, é exatamente este o único caso evidente de “racismo sistêmico”, dado que o movimento abortista foi caracterizado, desde o início, pelo seu racismo. Não surpreende, portanto, a desproporção, em relação à percentual da população, de meninos e meninas de cor que são despedaçados através do aborto, na quase total indiferença; certamente a indiferença do Black lives matter, que antes sustenta a “justiça reprodutiva” (Alicia Garza in Colorlines, 9 fevereiro de 2016), uma das tantas mistificações lingüísticas para tentar justificar o jamais justificável crime do aborto.

Quem analisou a origem e desenvolvimento do Black lives matter não teve dificuldade em apurar a sua própria auto-identificação como movimento neo-marxista, cuja pretensão vai de retirar fundos da polícia, à luta contra o capitalismo, às reparações monetárias a serem pagas apenas com base na cor. Como para movimentos análogos dos anos passados, estas reivindicações são acompanhadas pela violência, da qual as primeiras a sofrer os danos foram exatamente as comunidades afro-americanas que procuram melhorar a própria condição econômica.

Sem entrar no mérito do perfil biográfico das suas fundadoras (por si mesmo um tanto revelador), basta ler os 13 princípios-guia ostentados pelo movimento para dar-se conta de quais sejam os seus  verdadeiros objetivos. Entre estes 13 princípios, dois são dedicados ao ativismo homossexual: causa transexual (transgender affirming) e causa das “minorias sexuais” (queer affirming). Dois outros princípios são expressamente contra a família natural: destruição do núcleo familiar a favor de não identificadas aldeias e comunidades  (black villages) e redefinição do papel da mulher-mãe (black families). Em poucas palavras, nos encontramos diante das já conhecidas reivindicações perversas (no sentido etimológico da expressão, ou seja, não orientadas para o bem natural do homem), desta vez avançadas por detrás da isca do princípio de igualdade de dignidade de todos os homens independentemente da cor da sua pele (princípio obviamente sacrossanto, sem que exista necessidade do Black lives matter para recordar-nos).

Definitivamente, diante das marchas, dos gritos, da forma de um novo rito pagão (como o ajoelhar-se ou levantar as mãos) nos libertamos da ilusão que o movimento se limite a reivindicar a igual dignidade de todos e olhamos ao invés na cara da realidade de que coisa efetivamente se proponha alcançar aqueles objetivos sinistros que o movimento proclama abertamente.

 

Fonte: https://www.corrispondenzaromana.it/cosa-vuole-davvero-il-movimento-black-lives-matter/

terça-feira, 7 de julho de 2020

TRÊS REMÉDIOS CONTRA O DEMÔNIO QUE NOS INDICA O PADRE TANQUEREY


Do “Compêndio de Teologia Ascética e Mística”, de Padre Adolphe Tanquerey (1854 – 1932)
Estes remédios dos quais agora vos falarei são indicados pelos Santos e particularmente por Santa Teresa dAvila.



PRIMEIRO REMÉDIO: A ORAÇÃO HUMILDE E CONFIANTE.
O primeiro é uma oração humilde e confiante, para atrair para o nosso lado Deus e os seus anjos. Se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem, de fato, pode ser comparado com Deus? “Quis ut Deus?” Esta oração deve ser humilde; porque nada existe que coloque mais rapidamente em fuga o Anjo rebelde, o qual, tendo se rebelado por orgulho, na sabe mais praticar esta virtude: o humilhar-se diante de Deus, o reconhecer-se impotente para triunfar sem a sua ajuda, desfaz os desígnios do Anjo soberbo. Deve ser também confiante; porque, pressionando à glória de Deus o nosso triunfo, podemos ter plena confiança na eficácia da sua graça. É bom também invocar São Miguel Arcanjo, que, tendo infligido ao demônio uma esplêndida derrota, terá satisfação em coroar a sua vitória em nós por meio de nós. E com vontade o ajudará o nosso Anjo da Guarda se confiamos nele. Mas, não nos esquecemos de rezar especialmente à Virgem Imaculada, que com o pé virginal não cessa de esmagar a cabeça da serpente e é para o demônio mais terrível que um exército em ordem de batalha.

SEGUNDO REMÉDIO: OS SACRAMENTOS E OS SACRAMENTAIS.
O segundo meio é o uso confidente dos sacramentos e dos sacramentais. A confissão, sendo um ato de humildade, expulsa o demônio; a absolvição aplica em nós os méritos de Jesus Cristo e nos torna invulneráveis aos seus dardos; a santa Comunhão, colocando no nosso coração Aquele que venceu satanás, inspira ao demônio um verdadeiro terror. Os mesmos sacramentos, o sinal da cruz ou as orações litúrgicas feitas com espírito de fé em união com a Igreja, são também de preciosa ajuda. Santa Teresa recomenda em particular a água benta, talvez porque é muito humilhante para o demônio ver-se agredido com um meio assim tão simples.

TERCEIRO REMÉDIO: O DESPREZO DO DEMÔNIO.
O último meio é um sumo desprezo do demônio. É-nos dito também por Santa Teresa: “Com muita Freqüência me atormentavam estes malditos; mas me fazem exatamente pouco medo; porque eles, e eu o vejo bem, não podem mover um passo sem a permissão de Deus... Desejaria que se soubesse bem, todas as vezes que nós lhes desprezamos, eles perdem suas forças, e a alma adquire sobre eles sempre maior império... São fortes somente contra as almas covardes, que cedem a eles as armas; contra estes exibem seu poder”. Ver-se desprezados por seres mais frágeis é de fato uma dura humilhação para estes espíritos soberbos. Agora nós, como dissemos, apoiados humildemente em Deus, temos o direito e o dever de desprezá-los: “Si Deus pro nobis, quis contra nos?” Podem latir, mas não podem morder, se, por imprudência ou por orgulho, nós não nos colocamos em seu poder: “latrare potest, mordere non potest nisi volentem”. Deste modo, portanto, a luta que devemos sustentar contra o demônio, como também contra o mundo e a concupiscência, nos fixa na vida sobrenatural, ou melhor, nos faz também progredir.


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Coronavírus hoje e amanhã: o que nos ensina, de qual ponto recomeçar



O que está acontecendo não é somente uma emergência sanitária, mas um evento que envolve muitos aspectos da vida pessoal e social, que chamamos em causa a Doutrina social da Igreja. Eis algumas reflexões sobre a emergência em ato, e, sobretudo sobre o pós-coronavírus, feitas pelo arcebispo Giampaolo Crepaldi, feitas exatamente pelo Observatório internacional Cardeal Van Thuân para a doutrina social da Igreja.






NADA SERÁ COMO ANTES

A epidemia conexa com a difusão do COVID-19 possui um forte impacto sobre muitos aspectos da convivência entre os homens e por isto requer também uma análise do ponto de vista da Doutrina social da Igreja. A contaminação é antes de tudo um evento de tipo sanitário e já isto coliga diretamente com a finalidade do bem comum. A saúde faz parte certamente deste.

Ao mesmo tempo põe o problema da relação entre o homem e a natureza e nos convida a superar o naturalismo hoje muito difuso e esqueço que, sem o governo do homem, a natureza produz também desastres e que uma natureza sozinha boa e originariamente sem contaminação não existe. Depois, põe o problema da participação no bem comum e da solidariedade, convidando a enfrentar em base ao princípio de subsidiariedade as diferentes contribuições que os sujeitos políticos e sociais podem dar à solução deste grave problema e à reconstrução da normalidade quando tiver passado. Emergiu com evidência que tais contribuições devem ser articuladas, convergentes e coordenadas. O financiamento da saúde, problema que o coronavírus faz emergir com grande evidência, é um problema moral central na busca do bem comum. 

São urgentes reflexões, seja sobre a finalidade do sistema de saúde, seja sobre sua gestão e sobre a utilização dos recursos, dado que um confronto com o recente passado faz registrar uma notável redução do financiamento para as estruturas de saúde. Conexas com o problema da saúde existem ainda as questões da economia e da paz social, dado que a epidemia coloca em perigo a funcionalidade das fileiras produtivas e econômicas e o seu bloco, se continuado no tempo, produzirá falências, desempregos, pobreza, sofrimento e conflito social.

O mundo do trabalho será sujeito a fortes variações, serão necessárias novas formas de sustento e solidariedade e será preciso fazer escolhas drásticas. A questão econômica remete à do crédito e à monetária e, portanto, às relações da Itália com a União Européia da qual dependem no nosso país as decisões últimas nestes dois setores. Isso, por sua vez, repropõe a questão da soberania nacional e da globalização, fazendo emergir a necessidade de rever a globalização compreendida como uma máquina sistêmica globalista, a qual pode também ser muito vulnerável exatamente pelo motivo da sua rígida e artificial inter-relação interna pela qual, atingido um ponto nevrálgico, são produzidos danos sistêmicos totais e dificilmente recuperáveis. Destituídos de soberania os níveis sociais inferiores, todos serão atingidos por isso. Por outro lado, o coronavírus colocou também em evidência os fechamentos dos Estados, incapazes de colaborar verdadeiramente mesmo se membros de instituições supranacionais de pertença. Enfim, a epidemia colocou o problema da relação do bem comum com a religião católica e o da relação entre Estado e Igreja. A suspensão das missas e o fechamento das igrejas são somente alguns aspectos deste problema.

Assim nos parece ser o quadro complexo dos problemas investidos pela epidemia do coronavírus. Trata-se de argumentos que interpelam a Doutrina social da Igreja pela qual o nosso Observatório se sente chamado a oferecer uma reflexão, solicitando outras contribuições nesta direção. A encíclica Caritas in veritate de Bento XVI, escrita em 2009 no tempo de outra crise, afirmava que A crise nos obriga a reprojetar o nosso caminho, a dar-nos novas regras e a encontrar novas formas de compromisso, a focar nas experiências positivas e a rejeitar as negativas. A crise se torna assim ocasião de discernimento e de novo planejamento (n. 21).

O FIM DO NATUALISMO IDEOLÓGICO

As sociedades eram e são atravessadas por várias formas ideológicas de naturalismo que a experiência desta epidemia poderia corrigir. A exaltação de uma natureza pura e originariamente sem contaminação em relação à qual o homem seria um poluidor não tinha e, com maior razão, não possui agora. A idéia de uma Mãe Terra dotada originariamente de um seu equilíbrio harmônico com cujo espírito o homem deveria se conectar para reencontrar a justa relação com as coisas e consigo mesmo é uma loucura que esta experiência poderia dissolver. A natureza deve ser governada pelo homem e as novas ideologias panteístas (e não somente) pós-modernas são ideologias desumanas. A natureza, no sentido naturalístico do termo, produz também desequilíbrios e doenças e por isto deve ser humanizada. Não é o homem a ter que naturalizar-se, mas a natureza é que deve ser humanizada.

A revelação nos ensina que a criação foi confiada ao cuidado e ao governo do homem em vista do fim último que é Deus. O homem possui o direito, porque possui o dever, de gerenciar a criação material, governando-a e retirando dela o quanto necessário e útil para o bem comum. A criação é confiada por Deus ao homem, à sua intervenção segundo a razão e a sua capacidade de domínio sapiente. É o homem o regulador da criação, não o contrário.

OS DOIS SIGNIFICADOS DO TERMO SALUS

O termo Salus significa saúde, no sentido sanitário do termo, e significa também salvação, no sentido ético-espiritual e, sobretudo religioso. A atual experiência do coronavírus testemunha ainda mais uma vez que os dois significados são interconectados. As ameaças à saúde do corpo induzem mudanças nas atitudes, no modo de pensar, nos valores a procurar. Elas colocam à prova o sistema moral de referência de toda a sociedade. Exigem comportamentos eticamente válidos, denunciam atitudes egoístas, desinteressados, indiferentes, de exploração. Evidenciam formas de heroísmo na luta comum à contaminação e, ao mesmo tempo, formas de exploração de quem aproveita da situação.

A luta contra a contaminação requer uma recompactação moral da sociedade em ordem a comportamentos sadios, solidários, respeitosos, talvez mais importantes que a recompactação dos recursos. O desafio à saúde física se coloca, portanto em relação com o desafio da saúde moral. Serve para isso um profundo repensar dos desvios imorais da nossa sociedade, em todos os níveis. Frequentemente as desgraças naturais não são totalmente naturais, mas possuem por detrás atitudes moralmente desordenadas do homem. Não é ainda definitivamente esclarecida a origem da COVID-19 e também ela poderia demonstrar-se não de origem natural. Mas também admitida a sua origem puramente natural, o seu impacto social chama em causa a ética comunitária. A resposta não é e não será somente científico-técnica, mas deverá ser também moral. Depois da técnica, a grave contingência do coronavírus deveria fazer reviver sobre novas sólidas bases a moral pública.

A PARTICIPAÇÃO NO BEM COMUM

Será preciso uma participação ética porque em causa está o bem comum. A epidemia do coronavírus contradiz todos aqueles que sustentaram que o bem comum como fim moral não existe. Se assim fosse, por que coisa se esforçariam todas as pessoas que, dentro e fora das instituições, procuram fazer alguma coisa e lutam? A qual compromisso seriam chamados os cidadãos com as determinações restritivas se não a um compromisso moral em vista do bem comum? Sobre qual base se diz que alguns comportamentos neste momento são devidos? Quem negava a existência do bem comum ou quem confiava a sua busca somente a técnicas, mas não ao esforço moral para o bem, hoje é contradito pelos fatos. É o bem comum a dizer-nos que o da saúde é um bem que todos devemos promover. É o bem comum a dizer-nos que a palavra Salus possui dois significados.

Esta experiência do coronavírus irá ao ponto de aprofundar e alargar este conceito do bem comum? Enquanto se luta para salvar a vida de tantas pessoas, as intervenções de aborto provocado não cessam, nem cessam a venda de pílulas abortivas, nem cessam as práticas de eutanásia, nem cessam os sacrifícios de embriões humanos e tantas outras práticas contra a vida e a família. Sendo redescoberto o bem comum e a necessidade de uma harmoniosa participação em seu favor no campo da luta à epidemia, se deveria ter a coragem intelectual e a vontade de estender o conceito até onde naturalmente deve ser estendido.

A SUBSIDIARIEDADE NA LUTA PELA SAÚDE

A mobilização em ato contra a difusão do coronavírus viu a participação de muitos níveis às vezes coordenados às vezes não. Existem papéis diferentes que cada um desenvolveu segundo a sua responsabilidade. Uma vez superada a tempestade isto permitirá rever algo que na fileira subsidiária não tenha funcionado devidamente e de redescobrir o princípio importante da subsidiariedade para aplicá-lo melhor e aplicá-lo em cada campo em que ele pode ser aplicado. Uma experiência em modo particular deve ser valorizada: a subsidiariedade deve ser para e não como defesa da: deve ser para o bem comum e, portanto, deve ter um fundamento ético e não somente político ou funcionalístico. Um fundamento ético fundado sobre a ordem natural e finalístico da vida social. A ocasião é propícia para abonar as visões convencionais dos valores e dos fins sociais.

Um ponto importante colocado agora em evidência pela emergência coronavírus é o papel subsidiário do crédito. O bloco de amplos setores da economia para garantir maior segurança sanitária e diminuir a difusão do vírus colocam em crise econômica, sobretudo de liquidez, as empresas e as famílias. Se a crise tivesse que durar por muito tempo se prevê uma crise da circularidade de produção e consumo, com o fantasma do desemprego. Diante destas necessidades o papel do crédito pode ser fundamental e o sistema financeiro poderia resgatar-se de tantas e reprováveis dilapidações interessadas do recente passado.

SOBERANIA E GLOBALIZAÇÃO

A experiência em ato do coronavírus impõe que seja reconsiderado também os dois conceitos de globalização e de soberania nacional. Existe uma globalização que entende o inteiro planeta como um sistema de rígidas conexões e articulações, uma construção artificial governada por especialistas, uma série de vasos comunicantes aparentemente inabaláveis. Uma semelhante concepção se revelou porém também frágil porque basta atingir o sistema em um ponto e se cria um efeito dominó avalanche. A epidemia pode colocar em crise o sistema de saúde, as quarentenas colocam em crise o sistema produtivo, este faz cair o sistema econômico, pobreza e desemprego não alimentam mais o sistema de crédito, o enfraquecimento da população a expõe a novas epidemias e assim por diante em uma série de círculos viciosos com extensão planetária.

A globalização apresentava até ontem os seus esplendores e as suas glórias de perfeito funcionamento técnico-funcional, de indiscutível arrogância sobre a obsolescência de Estados e nações, de absoluto valor da sociedade aberta: um único mundo, uma única religião, uma única moral universal, um único povo mundialista, uma única autoridade mundial. Porém, depois pode bastar um vírus para fazer desabar o sistema, dado que os níveis não globais das respostas foram desabilitados. A experiência que estamos vivendo nos coloca em atenção em relação a uma sociedade aberta entendida neste modo, seja porque ela se coloca nas mãos do poder de poucos, seja porque outras mãos poderiam fazê-la cair rapidamente como um castelo de cartas. Isso não significa negar a importância da colaboração internacional que exatamente requerem, mas semelhante colaboração não tem nada a ver com estruturas coletivas, mecânicas, automáticas e globalmente sistêmicas.

A MORTE DA UNIÃO EUROPÉIA POR CORONAVÍRUS

A experiência destes dias mostrou uma União Européia mais uma vez dividida e fantasmagórica. Entre os Estados membros apareceram mais disputas egoístas que colaboração. A Itália ficou isolada e abandonada. A Comissão européia interveio tarde e o Banco Central Europeu interveio mal. Diante da epidemia cada Estado procurou de fechar-se em si mesmo. Os recursos necessários à Itália para enfrentar a situação emergencial, que em outros tempos seriam encontrados por ela mesmo, por exemplo, com a desvalorização da moeda, agora dependem das decisões da União a qual se deve prostrar.

O coronavírus definitivamente mostrou a artificialidade da União Européia que não consegue fazer com que os Estados colaborem entre si aos quais se sobrepôs por aquisição de soberania. A falta de algo que unisse moralmente não foi compensada pelo substituto institucional e político. É preciso dar-se conta deste inglorioso fim pelo coronavírus da União Européia e pensar que uma colaboração entre os Estados europeus na luta pela saúde é possível também fora de instituições políticas supranacionais.

O ESTADO E A IGREJA

A palavra Salus significa, como vimos, também a salvação e não somente saúde. A saúde não é a salvação, como nos ensinaram os mártires, mas em certo sentido a salvação dá também a saúde. O bom funcionamento da vida social, com os seus benéficos efeitos também sobre a saúde, possui também necessidade da salvação prometida pela religião: o homem não se desenvolve somente com suas forças (Caritas in veritatis, 11).

O bem comum é de natureza moral e, como dissemos acima, esta crise deveria induzir à redescoberta desta dimensão, mas a moral não vive de vida própria, dado que é incapaz de fundamentar-se ultimamente. Aqui se coloca o problema da relação essencial que a vida política possui com a religião, aquela que melhor garante também a verdade da vida política. A autoridade política enfraquece a luta contra o mal, como acontece também com a epidemia em curso, quando equipara as Santas Missas com as iniciativas lúdicas, pensando que devam ser suspensas, talvez ainda antes de suspender outras formas agregadoras sem dúvida menos importantes. Também a Igreja pode errar quando não faz valer, pelo mesmo autêntico e completo bem comum, a exigência pública das Santas Missas e da abertura das Igrejas. A Igreja oferece a sua contribuição à luta contra a epidemia nas várias formas de assistência, ajuda e solidariedade que ela sabe realizar, como sempre fez em casos semelhantes no passado. É o caso, porém, de manter alta a atenção à dimensão religiosa de sua contribuição, para que não seja considerada uma simples expressão da sociedade civil. Por isto assume um valor particular o que foi afirmado pelo Papa Francisco que suplicou ao Espírito Santo de dar aos pastores a capacidade e o discernimento pastoral para que apresentem medidas que não deixem sozinho o santo povo fiel de Deus. Que o povo de Deus se sinta acompanhado pelos pastores e pelo conforto da Palavra de Deus, dos sacramentos e da oração, naturalmente com o bom senso e a prudência que a situação exige.

Esta emergência do coronavírus pode ser vivida por todos como se Deus não existisse e neste caso também a fase sucessiva, quando a emergência terminará, aplicará em continuação uma semelhante visão das coisas. Neste modo, porém, terá sido esquecido o nexo entre saúde física e saúde moral e religiosa que esta dolorosa emergência fez surgir. Se, pelo contrário, se sentir a exigência de tornar a reconhecer o lugar de Deus no mundo, então também, as relações entre a política e a religião católica e entre Estado e Igreja poderão tomar uma estrada correta.

A emergência da epidemia em ato interpela profundamente a Doutrina social da Igreja. Esta é um patrimônio de fé e de razão que neste momento pode dar uma grande ajuda na luta contra a contaminação, luta que deve referir-se a todas as áreas da vida social e política. Sobretudo pode dar uma ajuda em vista do pós-coronavírus. Serve também um olhar de conjunto, que não deixe fora nenhuma perspectiva verdadeiramente importante. A vida social requer coerência e síntese, sobretudo nas dificuldades, e é por isto que nas dificuldades os homens que sabem olhar em profundidade e em alto podem encontrar as soluções e, até mesmo, as ocasiões para melhorar as coisas em relação ao passado.