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quarta-feira, 23 de março de 2022

Pergunto: o que é a correção fraterna, quando deve ser feita, se é obrigatório fazê-la, como deve ser feita...


 Questão

Caro Padre Angelo,

Possuo já alguma noção sobre a correção fraterna, mas não posso negar que tenho algumas dúvidas. Por isso, lhe pergunto: o que é a correção fraterna? Quando deve ser feita? Como deve ser feita? O senhor poderia me explicar também sobre as possíveis limitações? Agradeço pela sua disponibilidade, lhe asseguro as minhas orações e lhe desejo um bom dia.

Michele


Resposta do sacerdote

Caro Michele,

 

1 – por correção fraterna se entende a ajuda dada ao próximo que por motivo de algum seu pecado ou defeito corre o risco de causar danos a si mesmo e ao próximo. Já em nome da solidariedade humana é devido corrigir quem erra. Mas, esta ajuda se torna para os cristãos uma forma particular de caridade. Diz Jesus: Se o teu irmão comete uma culpa, vá e o corrija reservadamente; se te escutar, terás obtido um irmão; se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, para que tudo seja resolvido sobre a palavra de duas ou três testemunhas. Se ainda assim não escutar a estes, informe à Igreja; se mesmo assim não escutar a Igreja, seja para você como um pagão e um publicano (Mt 18, 15-17). S. Agostinho: Se deixares de corrigir, serás pior de quem cometeu pecado (De verbis Domini). E S. Tomás: a correção fraterna é um ato de caridade superior ao cuidado das doenças do corpo e das esmolas que retiram as misérias exteriores (Suma teológica, II-II, 33, 1).

2 – A correção fraterna não é uma opção, mas um dever de caridade. Todavia é necessário ser prudente. É um preceito moral positivo, que determina de cumprir uma ação. A propósito destes preceitos seja recordado que obrigam sempre, mas não em todo momento.

Portanto, se deve, sim, fazer a correção fraterna, mas não a todo o momento. Escreve S. Tomás: A correção fraterna é de preceito. Deve-se, porém, notar que enquanto os preceitos negativos da lei proíbem os atos pecaminosos, os preceitos afirmativos induzem a atos de virtude... a correção fraterna é ordenada ao melhoramento dos irmãos... não se deve corrigir o irmão que erra em qualquer lugar e em qualquer tempo(Ib., II-II, 33, 2).

3 – para que exista a obrigação da correção fraterna, que é grave se tem a ver com culpas graves para o indivíduo ou de males que prejudicam o bem comum, se deve verificar várias condições. Os teólogos resumem assim:

- que a matéria seja certa e manifesta. Não existirá obrigação se a matéria é oculta, a menos que se trate de um dever do superior na relação com um súdito;

- a necessidade, que se preveja que sem correção não pode se dar nenhuma melhora.

- a utilidade, que exista esperança de bom êxito. Caso se prevê que a correção não será produtiva, não se deve fazer.

- a possibilidade: que se possa fazer sem grave moléstia ou prejuízo de quem corrige. Não é motivo suficiente para omiti-la a previsão da momentânea indignação de quem é repreendido.

- a oportunidade: que seja feita no tempo, no lugar e no modo justo. É lícito, portanto e também obrigatório esperar tempos melhores.

4 – A correção fraterna deve ser feita com doçura para não agravar os ânimos. Diz S. Paulo: Se alguém é surpreendido em alguma culpa, vós que tendes o espírito, corrigi-o com doçura. E vigie sobre si mesmo para não cair também tu em tentação (Gl 6,1). E ainda: Não repreendas o ancião com dureza, mas exorta-o como se faz com um pai (1Tm 5,1). E S. Gregório Magno: Os justos, quando castigam severamente, não perdem a graça da doçura interna(Moralia, 24,10). Em uma só palavra, deve ser considerado o que dizia S. Francisco de Sales: que uma gota de mel atrai mais que um barril de vinagre. Deve ser feita, portanto, com caridade, humildade e prudência. A prudência também ensina a não fazer com freqüência as observações e, sobretudo, a não fazer publicamente, segundo o ensinamento do Senhor, para que quem é repreendido não se sinta humilhado diante de todos e seja tentado ao ressentimento.

5 – Para que a correção fraterna resulte frutuosa é necessário ter as cartas em ordem segundo o que disse o Senhor: Por que queres retirar o cisco do olho do teu irmão, enquanto no teu olho existe uma trave? (Mt 7,3). S. Agostinho diz que devemos refletir para ver se o vício que queremos corrigir nos outros não o temos também nós. E se não existe mais, que a correção seja precedida da misericórdia e não do ódio. Se depois nos damos conta de estar no mesmo defeito, não reprovemos, mas choremos juntos e convidemos os outros a se arrepender-se conosco(Ib.).

Agradeço por ter-me atraído para este assunto. Recordo de ti ao Senhor e te abençôo.


Padre Angelo

 

Fonte: Le chiedo che cosa sia la correzione fraterna, quando vada fatta, se sia obbligatorio farla, come vada fatta… – Amici Domenicani

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Novos mitos e idolatrias

 "Isto diz a ciência": um culto materialista e anti-científico

Enzo Pennetta

Isto diz a ciência: esta é uma das frases que mais entrou no uso comum dos últimos anos. De um ponto de vista científico, não existe a ciência, se existe alguma coisa são os cientistas. Os quais, exatamente porque adotam um método científico, estão sempre prontos a colocar-se em discussão. O cientista é, por natureza, humilde, uma afirmação é científica somente se em um amanhã ela pode ser demonstrada como falsa. Todavia, desde o tempo de Bacon, existe uma idéia de ciência que se coloca no lugar da religião, como explicação de tudo. E é esta visão que prevalece, seja entre os comunistas órfãos do comunismo, seja entre os cristãos que se sentem adultos.

 


Isto diz a ciência: esta é uma das frases que mais entrou no uso comum nos últimos anos e sempre mais em nome da ciência são tomadas decisões sobre todos os aspectos da vida social. Isto torna necessário esclarecer o que esta signifique verdadeiramente ou se tenha realmente um sentido.

Antes de tudo deve ser dito que não existe um sujeito denominado a ciência, existem ao invés pessoas identificadas como cientistas que pronunciam afirmações que são científicas exatamente enquanto passíveis de contestação. O filósofo Karl Popper ensinava que uma afirmação não pode ser considerada cientifica se não fornece uma possibilidade de ser demonstrada falsa. Impedir a expressão de vozes críticas, eventualmente com a justificação da inadequação do interlocutor, é, portanto uma contradição se queremos nos mover no âmbito do método cientifico. O verdadeiro cientista além do mais responde a todos, deve ter a capacidade de explicar-se também com pessoas não competentes de cultura média, uma frase atribuída a Einstein afirma Você não compreendeu verdadeiramente algo se não sabe explicar a sua avó.

O verdadeiro cientista não é jamais arrogante, isto contrasta visivelmente com a atitude muitas vezes zombeteira de alguns expoentes da ciência que são chamados a confrontar-se publicamente com temas de impacto social, o prêmio Nobel para a física Richard Feynman afirmava que Ciência é crer na ignorância dos especialistas.

Isto diz a ciência enquanto afirmação dogmática não somente é por isto mesmo anticientífica,  mas é uma frase tornada possível somente por um lento, mas contínuo, trabalho de diminuição do nível escolar que levou a transmitir noções sempre menos compreendidas, até chegar a um valor dogmático. Um fenômeno descrito pelo escritor Aldous Huxley no seu O Mundo Novo quando, em relação à educação científica ministrada, faz um personagem dizer: Você não recebeu uma cultura científica e como conseqüência não pode julgar. A cultura científica é uma cultura da dúvida e é o oposto da fé na ciência.

A fé na ciência experimental vai de encontro ao seu fundador Galileu Galilei, graças ao qual é superado o princípio de autoridade, o ipse dixit, desde aquele momento ninguém poderia argumentar com um é verdadeiro porque o digo eu que sou uma autoridade. Mas nos mesmos anos a ciência se tornava um instrumento de poder na obra de Francis Bacon que, na sua utopia A Nova Atlântida, indicava os cientistas como novos sacerdotes e guias da sociedade. A ciência, em Bacon, se torna uma fé substituta que pode substituir a política e a ideologia. Isto aconteceu, por exemplo, com o fim do comunismo quando um sistema mitopoético cientista tomou o lugar da ideologia marxista. O caráter, necessariamente em comum, para esta substituição é a pretensão de oferecer uma salvação: se passa da salvação de classe do comunismo àquela física da ciência experimental, ambas unificadas  no materialismo.

A ciência se torna fé quando pretende, e, sobretudo lhe é dado o direito de se tornar explicação de todo quadro da realidade esquecendo que o limite epistemológico da ciência experimental é exatamente colocado na impossibilidade de fazer afirmações de sentido. Aceitar uma ciência como explicação de tudo é fazer uma escolha de fundo que nega o sentido. Jacques Monod no seu O acaso e a necessidade colocava como base da ciência o postulado de objetividade ou seja a rejeição sistemática de considerar a possibilidade de chegar ao conhecimento verdadeiro mediante qualquer interpretação dos fenômenos em termos de causas finais, confiar na ciência para explicar o mundo pressupõe portanto como escolha inicial o abandono de uma procura de sentido.

A ciência como instrumento único ou soberano para assumir decisões sobre a vida política e social de uma população é, portanto em si a escolha de uma falta de sentido e em definitivo a negação de uma mentalidade que atribui um valor à ética, ao transcendente e ao que é propriamente humano, é uma delegação a construir uma sociedade em base a princípios biofísicos. A sociedade científica como substituto da religião precisa de suas próprias tabuas da lei para venerar e respeitar, de sacerdotes e homens santos com túnicas brancas, de identificar transgressores e hereges, de manter os rituais próprios da sociedade religiosa e desenvolver uma linguagem própria feita de termos, símbolos, gestos que possuem um valor de identificação e reconhecimento.

O cientificismo atraiu os órfãos do marxismo e por isto é praticado também hoje exatamente por quem provém daquela tradição. Vote na ciência foi significativamente o slogan de um partido em uma recente campanha eleitoral. O risco do afirmar-se do cientificismo como substituto redutivo de uma teoria sobre o mundo se torna real quando uma precedente visão entra em crise ou simplesmente se enfraquece, uma frase referida ao final do comunismo afirmava: Stalin nos deixou em apuros... não temos mais nada além da perspectiva de modernizar o País.

O risco de um deslize semelhante pode esconder-se também em uma visão religiosa que se dirige exageradamente ao social distanciando-se do transcendente, que se faz discurso político, uma religiosidade adulta que se ocupa principalmente dos corpos não reconhecendo mais as necessidades profundas do espírito, que olha para o progresso pensando que a tradição seja algo de um passado que deve ser superado e talvez a ser esquecido.

Depois que Stalin deixou em apuros o comunismo a escolha de dirigir-se em direção ao cientificismo poderia aparecer a perspectiva também de uma religiosidade desiludida e reduzida a doutrina social, então o caminho percorrido pelos órfãos do comunismo poderia ser compartilhado por um cristianismo cansado, debruçado sobre o social e muito confiante em uma salvação biológica que provém da ciência.


Fonte: "Lo dice la scienza": un culto materialista e anti-scientifico - La Nuova Bussola Quotidiana (lanuovabq.it)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

TEMPOS MODERNOS: Com o progresso, estamos todos nos tornando mais estúpidos

As filosofias progressistas ensinam que os dias de hoje são melhores que os do passado, sempre. E uma demonstração prática consistia no crescimento do quociente intelectivo na maior parte das pessoas testadas. Mas, já pelo menos há três décadas, o quociente intelectivo está caindo. E agora que desculpas procuram os progressistas?

 


Pintados nestas margens as pessoas humanas, o destino magnífico e progressivo’”.  Assim escrevia Leopardi na La ginestra, segundo alguns zombando do primo Terenzio Mamiani que tinha elaborado aquela expressão.  Que bela coisa, o progressismo: a idéia pela qual a estrada da humanidade é constantemente em subida: segundo a qual hoje é melhor que no passado e amanhã será ainda melhor. Nós – portanto – seremos melhores de quem nos precedeu e os nossos tempos melhores que os tempos antigos. Nós vivemos – sempre segundo o progressismo – melhor que os nossos pais, muito melhor que nossos avôs: agradeçamos, portanto, à ciência e à técnica, desconhecidas por aqueles trogloditas. Temos organismos geneticamente modificados, pesticidas, vacinas, computadores, celulares, cartão de vacina, SPID , Alexa, Amazon... às vezes perguntamos: mas, como era possível viver sem celular? Que ignorância tão grande, sem Wikipedia! Como somos sortudos, nós modernos.

Tinham, portanto, razão Hegel e Marx; errado Talleyrand, ao qual é atribuída a afirmação não conhece a doçura do viver quem não viveu os anos antes da Revolução (francesa). E pensar que tal besta (entendo dizer Talleyrand) fosse considerado um gênio pelos seus contemporâneos... Evidentemente eram ainda mais bestas! Que bela coisa o progressismo. Um bálsamo para a auto-estima e uma justificação perene para o status quo. Quantas vezes escutamos dizer Em 2021 não se pode dizer certas coisas, ou  Não estamos mais na idade média? com uma simples e estúpida frase liquidamos dois milênios; assim, com uma simples emissão de ar. Tão difuso que parece absurdo também somente refletir sobre tais afirmações! É evidente, não é necessária nenhuma demonstração. E depois: o pensamento lógico é um prejuízo dos séculos escuros... Agora somos smart, temos tantos slogans, a televisão e as redes sociais que nos poupam o cansaço de pensar. Somos nativos digitas e quem se obstina em pensar é um boomer, um analfabeto funcional: da Wikipedia (seja bendita para sempre): aqueles que não são capazes de compreender, avaliar e usar as informações na atual sociedade

Uma demonstração da verdade do progressismo é o assim chamado efeito Flynn. É um efeito observado pelo psicólogo James R. Flynn para o qual o QI médio está em constante aumento em diversos países do mundo ocidental. QI está para Quociente intelectivo: grosso modo é a relação entre a idade mental e a idade biológica.  Uma pontuação de 100 é considerada um valor médio: quem tem uma pontuação superior a 100 é considerado mais inteligente; vice-versa quem possui uma pontuação inferior a 100. Não entramos no eterno debate sobre a validade do QI: o núcleo do discurso é que, graças à escola gratuita e Pública, a uma alimentação industrial e à indústria farmacêutica, a população mundial se torna sempre mais inteligente! É a evolução da espécie que se cumpre diante dos nossos olhos, tinha razão Darwin! Porém, porém...

Porém, nos últimos anos (ou melhor: nas últimas décadas) esta teoria encontrou um obstáculo. Parece que – sempre nos países ocidentais – o QI médio está caindo. Em modo decisivo. Para ser mais preciso... está precipitando. Vejamos somente um pouco das pesquisas entre as mais recentes.

Em 2019, Leehu Zysberg, professor no Gordon College, em Israel, publicou  um artigo (A inversão do efeito Flynn e os seus reflexos em campo educativo) no qual define como dramático a queda de QI em muitos Países. Segundo Zysberg este efeito, observado nos anos Noventa do século passado, refere-se aos nascidos na metade dos anos Setenta em diante: dali em diante ele mesmo, na qualidade de professor, observou uma clara piora no desempenho escolar. Avaliando testes padronizados de matemática e escritura detectados entre os estudantes em uma dezena de Países, com exceção da Rússia, se nota uma clara diminuição de pontos de 2012 a 2015.

Três pesquisadores do Texas (Acosta, Smith e Kreinovich) publicaram um artigo em 2020 com o título Porque os pontos dos testes de QI estão ligeiramente diminuindo. Eles escrevem: Enquanto os pontos de inteligência estão em constante aumento há várias décadas, ultimamente, se observa um fenômeno inverso, quando a pontuação média não cresce mais; ao invés, declina.  Este declínio não é tão grande a ponto de varrer os resultados das décadas anteriores de crescimento, mas é bastante grande ser estatisticamente significativo. Como se percebe já no título, estes pesquisadores minimizam – sem poder negar – esta tendência; e a justificam como natural: está bem assim, é um acordo. Um analfabeto funcional observaria: se aumentam, é mérito do progresso; se diminuem, é natural...

Resumindo, viremos como quisermos, a fritada permanecerá sempre aquela: estamos nos tornando sempre mais estúpidos. E, como todos os estúpidos, não somente não somos capazes de nos dar conta; mas manifestamos arrogância por todos os poros. Bem, talvez seja esta atitude mais indicativa que vários testes psicológicos.

Fonte: Roberto Marchesini -  Col progresso, stiamo diventando tutti più stupidi - La Nuova Bussola Quotidiana (lanuovabq.it)

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Dizemos a você o que é a Filosofia e por que existe. Assim você vai compreender como é importante saber disso para sua própria Fé

 

Corrado Gnerre

Quando nos aproximamos da filosofia, um dos maiores erros que se pode fazer é começar sem começar, ou seja, iniciar sem conhecer o que seja a filosofia.

Em muitos livros se procura no início de dar uma resposta, mas depois nos damos conta que é uma resposta que não responde, evanescente, enganosa, que diz e não diz.

Você quer saber por quê? Porque muitos livros rejeitam uma concepção precisa da filosofia e tendem ao invés a apresentar-nos uma disciplina que intencionalmente não saiba nem mesmo o que ela mesma é. Contudo, uma coisa é se admitimos que existe uma verdade objetiva (ou seja, válida para todos); mas, se somos convencidos que não existem certezas, então também a filosofia não pode ter uma definição certa: pode se tornar tudo e o contrário de tudo.

 Nós, ao invés, somos convencidos que a Verdade (com o “V” maiúsculo) existe e é objetiva; e que a convicção contrária seja uma contradição, um tipo de serpente que morde a própria calda. De fato, se disséssemos que não existe a verdade objetiva, nos contradizemos, porque de qualquer modo admitiríamos que existe uma verdade válida para todos, ou seja: que a verdade não existe!

Dito isto, passemos à definição de filosofia, a uma definição precisa: A filosofia é a ciência de todas as coisas segundo as suas últimas causas, conhecidas pela luz natural da razão.

Como definição parece complicada, mas não o é. Vamos analisá-la.

Ciência. A filosofia é uma ciência. É ciência toda relação entre conceitos, e a filosofia se funda na argumentação, na sucessão lógica dos conceitos.

De todas as coisas. Para a filosofia interessa tudo, nada excluso. Não existe campo de interesse que lhe seja estranho.

Segundo as suas últimas causas. A filosofia, porém não é a soma enciclopédica de todas as disciplinas. Ela indaga sobre as causas últimas, se pergunta sobre o porquê das necessidades e das atitudes que convidam o homem a ocupar-se dos vários setores da vida. Um exemplo. Entre a política e a filosofia da política existe esta diferença: a política estuda o funcionamento da coisa pública, enquanto a filosofia da política o porquê o homem sente a exigência de fazer política, as razões da política e como o homem se coloque diante da política. Seria possível fazer filosofia sobre qualquer coisa. Também sobre as mais banais. Também sobre o futebol. Quando perguntamos: como se joga a bola? Somente um técnico pode responder (um treinador ou jogador). Mas, se perguntamos: por que muitos se divertem vendo uma bela partida de futebol ou recorrendo a uma bola? Pode responder a esta pergunta somente quem se arrisca a fazer um tipo de “filosofia do futebol”.

Conhecidas pela luz natural da razão. A filosofia não utiliza a fé, nem a intuição nem a emoção; mas a razão.

Dar à filosofia uma definição deste tipo (a filosofia é ciência de todas...) é importante porque freqüentemente existe a tendência a definir a filosofia com o seu simples significado etimológico, filosofia como “philein” (amor) e “Sophia” (sabedoria), ou seja amor pela sabedoria. Se fosse suficiente isso, significaria que o desejo de ler uma boa enciclopédia tornaria automaticamente a pessoa uma filósofo.. coisa que seria um absurdo!

 

Fonte: Ti diciamo cos’è la Filosofia e perché esiste. Così capirai quanto è importante saperlo per la propria Fede – Il Cammino dei Tre Sentieri

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ARGENTINA: Animais 'pessoas' não humanas: a revolução avança

Tommaso Scandroglio

 

A deputada argentina Graciela Camaño apresentou um projeto de lei que pede que se reconheça a alguns animais o status de pessoas não humanas, junto com uma série de direitos como o direito à vida, a não sofrer, à saúde, à assistência alimentar etc... Uma proposta que parte de um processo revolucionário antigo e abre a cenários bizarros, invertendo diabolicamente a hierarquia de valores inscrita na criação.

  


Tome cuidado, pois se no futuro você passar pela Argentina, pode ser que você seja solicitado de tirar a coleira do seu animalzinho de estimação. De fato, a deputada Graciela Camaño, ex-ministra do trabalho, apresentou um projeto de lei que tem a intenção de reconhecer aos animais o status de pessoas mesmo se não humanas, ou seja, de reconhecê-los como sujeitos de direitos não humanos. Não todos os animais, porém poderão esperar este avanço de classe, mas somente aqueles que demonstram ter capacidade cognitivas especiais e/ou sentimentos complexos que lhes distingam das outras espécies (art. 3).

Sendo sujeito de direitos obviamente significa que será titular de alguns direitos e de fato a proposta de lei elenca alguns direitos fundamentais a serem tutelados por estas pessoas não humanas: direitos à vida, direitos a não sofrer, direitos à saúde e à assistência alimentar (art. 4). Além do mais, estas pessoas-animais não poderão ser objeto de transações comerciais, mas somente de doações, nem mantidas presas (art. 5). Enfim, qualquer pessoa-humana poderá agir juridicamente na defesa deles.

Já em 2014 a Câmara Federal da Cassação argentina tinha reconhecido subjetividade jurídica a uma fêmea de orangotango, a qual foi libertada do zoológico em que estava presa para ser colocada em um enorme parque na Flórida.

Propormos uma reflexão partindo do conteúdo das normas citadas: A primeira: quem avalia a presença de capacidades cognitivas especiais e/ou sentimentos complexos que lhes distinguem das outras espécies? Não somente, mas quais critérios usar para individuar nos animais tais capacidades cognitivas especiais e tais sentimentos evolutivos? Neste sentido, quem pode dizer que um golfinho é mais inteligente que um caracol? Talvez este último não externa todo o seu potencial somente por timidez, querendo exatamente falar de sentimentos complexos. Mas também no caso em que, por exemplo, o caranguejo não estivesse entre as espécies de primeira classe se poderia perguntar: não seria injusta discriminação? Por que o macaco sim e a galinha não? Somente porque é mais estúpida? Não seria este, ainda mais, um motivo para protegê-la? Não se diz que o grau de civilização de uma pais se mede em base a sua capacidade de proteger os últimos?

E depois estes critérios excluiriam algumas pessoas-humanas: observe os deficientes mentais, as pessoas acometidas de doenças neurodegenerativas, os recém-nascidos. Na realidade, nada de novo sob o sol. Existem biotecistas por aí que usaram estes mesmos critérios para registrar a patente de pessoa somente a alguns seres humanos, eliminando os outros do grupo dos eleitos.

Segunda reflexão: esta lei prova que o homem é considerado menos que uma foca. Exatamente porque o nascituro não demonstra capacidade intelectiva elevada e sentimentos complexos, o guaxinim é titular do direito à vida, mas o feto humano não. Assim também o recém-nascido deficiente pode ser submetido à eutanásia – veja os casos de crônicas acontecidos no reino Unido – mas o gambá não.

Prosseguimos: a proposta de lei fala de direito dos animais a não sofrer. E, portanto nos vem o pensamento de que estes estão muito melhor que nós, dado que semelhante direito não se encontra em nenhuma constituição ou código civil. É melhor uma vida de cachorro que de humano, seria a conclusão. O direito aos alimentos recorda aquele que o cônjuge separado deve ao outro cônjuge, mas é somente uma curiosa analogia. Interessante ao invés é que os animais não poderão ser adquiridos e vendidos, mas somente doados. Evidentemente de agora em diante deverão ser o gatinho e o cachorrinho a escolher livremente se querem ou não ficar conosco, se ninguém decide de presenteá-los. Entre outras coisas, se são pessoas não deveriam nem sequer ser feitos objeto de doação. Mas talvez neste caso prevaleceu a lição proveniente da prática da barriga de aluguel onde a criança é doada (não é verdade) ao casal que pediu.

Enfim, a proibição de ter estes animais presos abrirá a cenários bizarros:  destruídos o canil no jardim, os estábulos, as gaiolas, os aquários porque são lugares ilegítimos de detenção, o que acontecerá? Acontecerá que os cães, as vacas, as ovelhas, os porcos, os passarinhos, os répteis e os peixes deverão ou ser hospedados em casa ou, se não possível (um golfinho na banheira é incômodo manter e o porco na sala é problemático dado que é notório que tenha conflitos não resolvidos com o sabão), deverão ser liberados na natureza. Além do mais, um cavalo não poderá mais ser selado ou um cachorro mantido na coleira ou com focinheira porque nenhuma pessoa deve ser usada. A pessoa é sempre fim, jamais meio.

Ao ler todo este catálogo de direitos vem depois a pergunta: e os deveres? Sendo pessoas, que assumam também alguma obrigação. Ao invés nada, porque estes animais não humanos são considerados como pessoas incapazes, portanto não livres, necessitadas de tudo, mas imunes de qualquer dever.

 Esta proposta, que se inspira na Declaração universal dos direitos dos animais da Unesco de 1978, cristaliza em modo límpido um processo revolucionário em curso pelo menos há séculos. No humanismo Deus foi retirado do centro do universo e no seu lugar foi colocado o homem. Agora toca ao homem, ultrapassado pelos animais. É em fundo o princípio inspirador do ambientalismo. Amanhã serão as plantas a retirar o cetro dos animais e enfim as coisas, como os robôs. Em suma, se trata de um projeto realmente diabólico: Satanás não pode inventar realidades que não existem, mas pode virar de cabeça para baixo a ordem natural das coisas, inverter uma hierarquia de valores escrita na criação. Daqui o número que é referido ao diabo: 666, três vezes o nove, ou seja, o cubo do número da perfeição, de cabeça para baixo. Coincidentemente se chama o número da besta.

  

Fonte: Animali 'persone' non umane: la rivoluzione avanza - La Nuova Bussola Quotidiana (lanuovabq.it)

segunda-feira, 26 de julho de 2021

ENTRE fogueiras de hoje e história: Canadá e escolas para indígenas, a Igreja bode expiatório

Luca Marcolivio

Umas vinte igrejas, muitas católicas, queimadas ou vandalizadas no Canadá depois da descoberta de túmulos anônimos de crianças. Na origem existe o papel nas escolas residenciais desejadas pelo governo desde o XIX século para a assimilação dos indígenas canadenses, freqüentemente mortos, em carência de ajuda, por doenças e fome. E hoje Trudeau ataca a Igreja, procurando fazer esquecer as culpas do Estado.

 


No Canadá está se consumando um confronto epocal entre Estado e Igreja. Entre fossas comuns que vieram à luz e igrejas queimadas, como frequentemente acontece, a verdade é escondida entre as dobras da História.

Já no final de maio, 215 restos de crianças nativas americanas tinham sido encontrados sepultados em uma fossa comum no terreno pertencente a uma antiga escola católica de Kamloops, na Columbia Britânica. A escola era um dos tantos colégios instituídos no XIX século para a educação dos pequenos nativos. Sabendo da notícia, durante o Ângelus de 7 de junho passado, papa Francisco tinha expresso a própria aproximação à comunidade católica e a todo o povo canadense traumatizado pela notícia chocante. O Pontífice tinha pedido que fosse esclarecido um fato que aumenta ulteriormente a consciência das dores e dos sofrimentos do passado.

 


Na Jornada Nacional das Populações Indígenas, celebradas no Canadá no dia 21 de junho passado, duas igrejas foram incendiadas. No espaço de um mês, aconteceram uns vinte incidentes aconteceram como incêndios e graves atos de vandalismo contra as igrejas, em grande parte católicas. Pelo menos dois dos episódios foram qualificados pela polícia canadense como possíveis incêndios dolosos. Não existe prova, pelo menos pelo momento, de um nexo de causalidade entre os dois fenômenos, especialmente porque o sudoeste do país foi atingido por uma onda de calor sem precedentes. Inverossímil, porém, pensar que as altíssimas temperaturas possam ter provocado também incêndios nos lugares de culto.

A segunda e mais relevante descoberta aconteceu em 23 de junho, junto ao ex Marieval Indian Residential School, na província do Saskatchewan. Não fossas comuns, mas 751 tumbas anônimas. A anunciar foi Cadmus Delorme, chefe da comunidade Cowessess. A notícia que centenas de tumbas sem nome foram encontradas na Cowessess First Nation é absolutamente trágica, mas não surpreendente, tinha twitado Perry Bellegarde, chefe nacional da Assembléia das Primeiras Nações.

Os representantes das mesmas Primeiras Nações esperam as desculpas formais da Igreja católica pelo papel que teve no sistema de escolas residenciais preparado naquele tempo pelo governo canadense. O genocídio cultural foi reconhecido em 2015 pela Comissão pela Verdade e reconciliação, segundo a qual se estima que seriam cerca de 6000 crianças mortas nestas escolas. Os pequenos alunos das escolas católicas ou de outras denominações cristãs, afirmam os acusadores, eram mantidos em condições higiênico-sanitárias assustadoras, maltratados, sujeitos à inculturação forçada e às vezes abusados.

O primeiro ministro canadense Justin Trudeau, desde o momento de sua posse, em 2015, acelerou o processo de investigação e deu impulso a uma série de iniciativas comemorativas pelas vítimas. Foi ainda Trudeau quem fez um pedido de desculpas formais por parte de Papa Francisco. Com o Pontífice, o primeiro ministro canadense disse ter falado pessoalmente, insistindo sobre o quanto seja importante não somente que peça desculpas, mas que o faça com os indígenas canadenses em solo canadense. Sei que o líder da Igreja Católica – acrescentou Trudeau – está explorando muito ativamente quais os passos que podem ser cumpridos.

Na realidade, alguns pedidos de perdão já chegaram, sem ordem particular, nos últimos trinta anos. Os primeiros a pedir desculpas da parte católica, em março de 1991, foram os bispos da Conferência episcopal e os superiores das ordens religiosas que tinham participado das escolas residenciais; depois, em julho do mesmo ano, foram as desculpas específicas dos Oblatos de Maria Imaculada, que tinham administrado a mencionada escola de Kamloops até 1969. Em 2009, também, o papa Bento XVI expressou “a sua dor pela angústia causada pela conduta deplorável de alguns membros da Igreja no Canadá. Depois das descobertas das últimas semanas, o arcebispo de Vancouver, monsenhor Michael Miller, se desculpou sinceramente e profundamente com os sobrevividos e as suas famílias, bem como com todas as pessoas sucessivamente atingidas, pela angústia causada pela conduta deplorável daqueles católicos que perpetraram maus-tratos de qualquer tipo nestas escolas residenciais. O prelado acusou a política colonialista que no passado provocou devastações a crianças, famílias e comunidades.

No entanto, um passo concreto em direção à reconciliação poderá ser o encontro entre o papa Francisco e as comunidades indígenas canadenses, programado para os dias entre 17 e 20 de dezembro.  A Conferência episcopal do Canadá participará do encontro no Vaticano, junto a representantes das Primeiras Nações, Métis e Inuit. Louvando o esforço do Pontífice em escutar as populações indígenas e a responder aos seus sofrimentos, os prelados expressaram a sincera esperança que estes próximos encontros portem a um futuro compartilhado de paz e harmonia entre os povos indígenas e a Igreja católica no Canadá.

Mas, é realmente somente a Igreja a ter que pedir perdão? A realidade dos fatos é, como acenado, mais complexa. As escolas das fossas comuns e dos cemitérios de massa não são escolas católicas qualquer, mas eram denominadas escolas de assimilação: a partir de 1863, os institutos, mantidos pelos católicos  ou membros de outras confissões cristãs, foram destinados a inculturação de cerca de, aproximadamente, 150.000 crianças indígenas no total. Boa parte dos pequenos alunos foi retirada das famílias, em nome de um projeto de molde colonialista, cujo primeiro impulso, porém, foi do governo canadense. Dezesseis dioceses participaram do projeto e, e a um certo ponto, cerca de 60-70% das escolas de assimilação eram católicas.

A última escola residencial foi fechada definitivamente em 1998. Por quanto possam ter acontecido episódios de violência direta, segundo algumas reconstruções, muitas crianças morreram de fome, de frio ou de doenças, por culpa da ineficiência do governo, que não fornecia suficientes auxílios às escolas.

Enquanto isso, no mês passado Trudeau reafirmou que aceitou a conclusão de uma investigação segundo a qual o Canadá teria cometido um genocídio cultural contra as populações indígenas. Não obstante a promessa de uma reconciliação em relação aos autóctones, nos primeiros anos de seu mandato, Trudeau gastou quase 100 milhões de dólares para desafiar em tribunal as Primeiras Nações. Salvo depois por projetar toda a culpa do genocídio cultural sobre a Igreja, quando, na realidade, as escolas incriminadas foram envolvidas em um projeto de matriz eminentemente governativa, financiado pelo estado canadense.

Também na Igreja, em todo caso, existe quem rejeita de dar uma de bode expiatório. O mesmo presidente da Conferência episcopal canadense, monsenhor Richard Gagnon, arcebispo de Winnipeg, em uma recente homilia, disse sem rodeios: Existe uma perseguição em curso. Segundo Gagnon, o papel da Igreja, neste acontecimento, teria sido turvado por numerosos exageros e idéias falsas. Afirmações que, como era previsível, suscitaram um vespeiro de polêmicas, em particular entre as comunidades nativas.

Uma história muito triste, em que, no banco dos acusados permanece sempre e somente um sujeito: a Igreja. Sobre a responsabilidade do Estado existe ainda silêncio ensurdecedor.

 

Fonte: Canada e scuole per indigeni, la Chiesa capro espiatorio - La Nuova Bussola Quotidiana (lanuovabq.it)

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Por que devemos querer bem a nós mesmos? Porque Deus nos ama!

 


 Corrado Gnerre

Você recorda o caso do DJ Fabo? Aquele que decidiu ir morrer em uma clínica da Suíça porque tinha ficado imobilizado por conseqüência de um ancidente de estrada. Pois é, a sua namorada, Valéria Imbroglio, comunicou, nos dias em que toda a Itália discutia sua escolha como jovem, a sua relação com a religiosidade oriental e também com certas correntes esotéricas. Contudo, os dois jovens, antes do acidente, tinham por quase cinco anos vivido na Índia seguindo um santo local.

Um dado como este não é, de fato, irrelevante e explicaremos o porquê.

Não cansaremos jamais de dizer (contudo o ponto fundamental sobre o qual se fundamenta o Terzo Sentiero de Il Cammino dei Tre Sentieri): somente o Cristianismo oferece uma autêntica resposta ao mistério do sofrimento. Por um motivo muito simples: porque somente o Cristianismo anuncia um Deus que quis livremente sofrer e que com o sofrimento “consertou” tudo.

Pode parecer uma particularidade quase insignificante, ao invés isto é tudo e é a resposta para tudo. Saber que Deus salvou sofrendo, quer dizer não somente convencer-se que o sofrimento é a estrada mestra, mas também que quem sofre se torna em certo modo um “privilegiado”, porque ainda mais pode conformar-se Àquele que e o alfa e o ômega de tudo, Cristo.

É por isto que quando o Cristianismo se introduziu na História, também a mudou radicalmente.

Bastaria pensar qual fosse o juízo sobre o sofrimento no mundo antigo. Com o Cristianismo, ao invés, se realiza uma mudança radical: existe o convite a freqüentar a escola do sofrimento. Os doentes, de rejeitados e de “material descartável”, se tornam ícones de Cristo Crucificado. Nascem finalmente os hospitais, ali onde quem sofre é acolhido e cuidado; ali onde se faz compreender que ele é uma “graça”, a fim de que, acolhendo e cuidando dele, os sadios possam exercitar as virtudes necessárias para a salvação.

Enquanto a Cruz não apareceu na história, o sofrimento é algo a ser distanciado e exorcizado.

Mas, depois, a história decidiu novamente remover a Cruz. Ficaram os hospitais, ficaram as belas palavras para s sofredores, mas o sofrimento se tornou um peso terrificante, impossível de carregar.

E no caso da assim chamada “espiritualidade oriental” a questão se agrava, porque não somente esta não possui uma adequada resposta ao sofrimento, mas, habituada a ver no corpo um limite, odeia profundamente o sofrimento. Já o corpo sadio é algo do qual libertar-se o quanto antes (pensemos na moksha hinduísta), imagine o corpo atingido pela doença.

Não por acaso a namorada do DJ Fabo frequentemente falava de “liberdade”: Fábio vai a Suiça para “libertar-se”. E depois da morte: Agora finalmente Fábio está “livre”.

Quando a Cruz não existe, se perde tudo.

Perde-se também a capacidade de se amar. Sim, porque aceitar o sofrimento sempre e de qualquer maneira, quer dizer amar-se. Enquanto rejeitar o próprio – também terrível – destino, quer dizer negar-se, destruir-se, porque o próprio pensamento já não coincide com o próprio ser e com o próprio lugar.

O lugar... mas o que tem a ver o lugar? Tem muito a ver. O lugar é o reconhecer onde se está. E, para que isto aconteça, é preciso apaixonar-se ao que está acontecendo na própria vida, sempre e de qualquer maneira... invocando de Deus a ajuda para enamorar-se do que se é e onde se está.

São Bernardo de Claraval em uma sua importante obra, De diligendo Deo, fala de quatro graus de amor: 1) O amor que o homem tem por si mesmo. 2) O amor a Deus não ainda por Deus mesmo, mas por si. 3) O amor a Deus não mais por si mesmo, e nem mesmo pelo próximo, mas somente por Deus. 4) O amor do homem a si mesmo mas somente por Deus.

Interessante. São Bernardo diz que o último grau de amor contempla ainda o amor a si mesmo, mas sublimado e, sobretudo motivado pela Presença e pela Vontade de Deus.

Em suma, se Deus nos quer, também nós devemos querer bem a nós. Se Deus nos ama também nós devemos nos amar.

Também por isto se torna chave de tudo a Cruz.

Diz-se justamente: não existe posto sobre a face da terra onde o homem possa encontrar a paz, se não aos pés de uma Cruz.

 

Fonte: Perché dobbiamo voler bene a noi stessi? Perché Dio ci ama! – Il Cammino dei Tre Sentieri