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terça-feira, 16 de outubro de 2018

OCIDENTE DEPRIMIDO: O ministério inglês anti-suicídio e a felicidade nigeriana



Theresa May instituiu um ministério para a prevenção do suicídio pensando que a causa seja a discriminação. A mesma pela qual se defende o direito a fazer, professar e ser o que se quer, independentemente da realidade dos fatos. Ainda assim são muitos os sinais que dizem que a felicidade se encontra na aceitação do limite, o mais evidente está na “pobre” Nigéria que, porém, escreve o The Guardian, “encontra esperança em Cristo”.





Antes mesmo de perguntar-se o porquê de um surto de suicídios crescente, o Reino Unido de Theresa May decidiu de instituir um ministério para a prevenção do suicídio dirigido por Jackie Doyle-Price.  O número inglês das pessoas que retiram a própria vida a cada ano é de fato imenso (4.500), com uma onda nos últimos cinco anos entre os adolescentes de 15 a 19 anos devido principalmente à alienação da tecnologia que agravou a fragilidade deles.

Explicando que existirá um plano de prevenção também nas escolas e entre os menores, a May não especificou qual seja a causa principal da praga, mesmo se pelo nome dado ao departamento, “Ministério da Saúde Mental, das Desigualdades e da Prevenção ao Suicídio” se pode perceber a tendência do governo em pensar qual seja a culpa do desespero crescente. A campanha moderna contra as desigualdades nasce de fato da reinvindicação dos direitos em base ao sexo de pertença que hoje foi declinado no direito a fazer, professar e ser o que se quer, independentemente da realidade dos fatos. Pelo qual hoje nas escolas inglesas, desde a infância, se ensinam os ditos “direitos Lgbt”, é proibido o uso de pronomes masculinos e femininos, abrindo banheiros gender free e deixando espaço a todo credo e religião mesmo se não se trate da “cristã” que se opõe a tudo isto. Poderia, portanto, se pensar que os planos de prevenção ao suicídio seja um reforço ulterior destas políticas nascidas da ideia que o limite seja a fonte de frustração e que por isso deve ser eliminado. 

Ainda assim um mínimo de lógica deveria pelo menos levar a classe dirigente a perguntar-se porque quando a sociedade respeitava mais os vínculos naturais e os deveres sociais, o índice dos suicídios era muito menor. Levando em conta que quando tudo isto foi disseminado a solidariedade decaiu e a Inglaterra dos caprichos do arco-iris, da fecundação artificial em todos os molhos, da contracepção, do aborto maciço, das mães individuais e do “islamicamente correto” se tornou o primeiro país Europeu na classificação daqueles entre os quais o individualismo, ao qual se ligam  “a ânsia e a infelicidade”, é mais difuso. Não por acaso uma pesquisa da Northwestern University de Evanston (Illinois) mostra quanto a depressão seja um fenômeno ocidental, praticamente desconhecido nas sociedades talvez menos desenvolvidas, mas que vivem uma solidariedade interna maior.

Existe depois outro dado do qual a Grã Bretanha colocou em prática, mas que parece não saber ler nem ligar ao problema dos suicídios. Foi o Time mesmo a dar-nos destaque no início do mês, falando do estudo publicado no Journal Healt Psychology que liga a depressão e a doença física ao incremento da solidão, enquanto o matrimônio obtém o efeito oposto. As pesquisas, feitas com 19 mil pessoas casadas, falam também do “para sempre” como da salvaguarda de “identidade significativa e de uma razão pela qual viver”. Mas, sobretudo emerge que a relação entre cônjuges gera maior bem estar e felicidade que aquela entre amigos. Por isso, esclareceram os pesquisadores, “pensamos que exista algo de mais específico na relação conjugal em relação a outras relações sociais”.

Ainda assim, não obstante todos estes sinais do fato que é a ausência de vínculos a gerar angústia (não a presença deles), chamando à necessidade de retornar a uma ordem natural a qual obedecer, a Inglaterra pensa que pode resolver a difusão dos suicídios com as políticas de inclusão. Aquelas mesmas que têm profundamente a que ver com a solidão no conceber a própria pessoa como uma fonte de direitos absolutos separada de qualquer dever, responsabilidade e realização humana a qual responder (veja a contracepção, o aborto, a mudança de sexo maciço entre os jovens ingleses etc..)

Mas a verdadeira resposta à crise, da qual depois nasce a aceitação dos limites e de relacionamentos duradouros, a deu exatamente o quotidiano progressista The Guardian, que em julho foi a Nigéria, descobrindo que um dos países mais miseráveis e “desventurado” do mundo é também o mais feliz. O enviado entrevistou quarenta pessoas das mais miseráveis, descobrindo que somente uma delas tinha problemas de depressão e encontrando-as chocadas ao se sentirem interrogadas: “Já pensou alguma vez em suicídio?” porque entre esta gente a ideia que não valha a pena viver não é nem distantemente contemplada.  Nem mesmo quando o sofrimento é dos piores, enquanto bastam também leves frustrações para levar o homem ocidental a encher-se de antidepressivos, droga ou, por que não, a pensar na eutanásia.

Assim, diante da pergunta sobre suicídio, um pobre nigeriano se sente também ofendido. “Por quê?”, se perguntou o enviado habituado a uma difusa propensão a este pensamento entre os europeus? A responder-lhe sem arrodeio deslocando uma mente “avançada” foi um motorista desempregado há muito tempo: “O sofrimento às vezes é até mesmo bom. Cristo disse que neste mundo existiria o sofrimento... se vivêssemos em um mundo sem sofrimento, seria anormal”. No artigo se faz perceber que a fé não tem o mesmo efeito sobre os que creem na Inglaterra cujo estilo de vida, obsessivo pela estabilidade, pela segurança e pelo controle (influenciado pela mentalidade mundana) não se diferencia tanto daquele dos ateus do próprio país.

Pelo contrário, os nigerianos, distantes do racionalismo materialista, aceitam o sofrimento como parte da vida, na certeza de que exista “o além – a continuação da vida que dá sentido à vida”, explica o enviado. “Se realmente a vida continua, então esta é uma fase – esta falta, esta doença, esta privação... Mas se a vida termina aqui, se todos os caros que morreram de fato desapareceram para sempre, se não será feita justiça para todos os erros que sofri neste mundo, então como pode realizar-se a felicidade?”. Um paliativo, um ópio, se poderia afirmar. Será, mas por que então não existe nada mais, nenhum curso de yoga, filosofia ou antidepressivo, capaz de debelar a depressão, o stress e a infelicidade sem dever censurar nada da realidade (nem mesmo o sofrimento)?


Fonte:
http://www.lanuovabq.it/it/il-ministero-inglese-anti-suicidi-e-la-felicita-nigeriana


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Azuaje Ayala: «Foi o socialismo que destruiu a Venezuela»



À vigília do encontro dos bispos venezuelanos com o Papa, o presidente da Conferência episcopal denuncia a gravíssima situação econômica e humanitária provocada pelo regime socialista. Graves repercussões também para a Igreja que, mesmo privada de padres e religiosos e de seus recursos, não cessa de servir ao seu povo.



Da quinta-feira, 6 de junho a sábado, 15 de setembro, os bispos venezuelanos realizam a tradicional visita Ad Limina Apostolorum, um evento de grande importância. A última vez que os bispos venezuelanos estiveram juntos no Vaticano foi em 2009 sob o pontificado de Bento XVI, agora Papa emérito. Depois de 9 anos, mais de quarenta bispos retornam portanto, mas em uma situação social e eclesial muito diferente, quando a Venezuela se encontra em uma situação de colapso geral, algo jamais acontecido na sua história.

Para compreender a realidade do povo venezuelano e o serviço da Igreja neste contexto assim difícil, La Nuova BQ falou, com exclusividade, com o presidente do episcopado, o arcebispo de Maracaibo Dom José Luis Azuaje Ayala. A atual situação da Venezuela será o argumento principal do encontro entre o episcopado e o Papa Francisco, que acontece hoje, terça 11 de setembro, às 10:30 da manhã.

Por que a Venezuela se encontra em colapso? “Tudo está em crise porque foi imposto um modelo político diferente daquele previsto pela nossa Constituição nacional. Mesmo se os governantes tenham chegado ao poder através da via eleitoral, no exercício deste distorceram o modelo político oferecido inicialmente, utilizando a pessoa como um meio para impor uma ideologia, chamada socialismo revolucionário (socialismo do século XXI). Trata-se de uma ideologia cujo interesse humano não está no centro, é um meio, um escravo, está ali e serve como um instrumento para realizar tal ideologia. É contra a dignidade humana”.

Foi este modelo político que levou a Venezuela para a mais grave crise da sua história: o sistema produtivo do País faliu e a hiperinflação gerou a migração forçada de aproximadamente 2,3 milhões de venezuelanos, segundo as estatísticas das Nações Unidas (atualizadas até o final de junho). “Desde o anúncio das recentes medidas econômicas – afirma o prelado – muitas empresas, muitas lojas fecharam as portas. A inflação está fora de controle e a aquisição de matéria prima é impossível por causa da falta de moeda estrangeira. Portanto, o mercado entrou em crise e o setor industrial perdeu a sua capacidade de funcionar”.

O arcebispo de Maracaibo descreve depois as terríveis consequências para os venezuelanos, que se deparam também com a grave falta de serviços públicos. “Em toda a Venezuela há crise energética. Aos cidadãos falta eletricidade, água potável, transporte público e também o setor de saúde está paralisado. Em Zulia, por exemplo, temos blackout constantemente e estes blackouts duram 14, 24 e 48 horas. Ainda que o Zulia tenha sido uma das regiões mais importantes do País pela presença do petróleo, mas hoje não possui mais capacidade de desenvolvimento”.

A crise atingiu também a Igreja venezuelana. “Não temos recursos, infelizmente o setor educativo e de saúde que a Igreja possui sob sua responsabilidade sofreu um colapso com o pacote econômico imposto por Maduro. Não somos contrários ao aumento de salários, somos contra uma política econômica doente, que não produz nada; também o próprio governo não tem como enfrentar o aumento do salário (de 3.600%)”, afirma.

Dom Ayala depois destaca como na Venezuela “os pobres ajudam os pobres”. Portanto, explicou que “com a reconversão monetária e o aumento do salário, sem uma estrutura econômica favorável, não existe nenhuma possibilidade de servir as pessoas como desejariam. Existem muitas limitações. Estes são problemas muito delicados e muito difíceis que devemos resolver”.

Mas, o problema não é somente econômico: o trabalho pastoral na Venezuela sofreu um grave declínio por causa do êxodo em massa dos venezuelanos, que destruiu as equipes apostólicas e pastorais. Da mesma maneira o declínio da saúde dos sacerdotes é evidente, com poucas possibilidades de encontrar remédios e um grande número de religiosos que tiveram que deixar o País, sem ter possibilidade de substituições.

“Existe um grave declínio físico e psicológico dos nossos responsáveis de pastorais”. O presidente do episcopado venezuelano explica que “muitos sacerdotes possuem graves problemas de saúde; diversas ordens religiosas tiveram que fechar as comunidades e retornar aos seus países de origem, levando como consequência ao abandono das comunidades paroquiais, porque não existem substituições em breve tempo. Existem diversas comunidades religiosas femininas, em particular colombianas e espanholas, que tiveram que deixar a Venezuela por problemas de saúde (por causa da falta de remédios) ou porque o governo não renova o visto e não têm permissão de permanecer no país. Isso implica que importantes obras de educação e de saúde e obras missionárias são abandonadas”.

Para o arcebispo de Maracaibo, a desmoralização que sofre o povo venezuelano é a consequência mais grave. “Na Venezuela se vive em um conflito permanente, que leva qualquer um à depressão: as imensas filas para abastecer o carro ou para comprar qualquer produto ferem a dignidade humana. Todavia, não podemos pensar que aquilo que acontece na Venezuela seja algo de acidental: tudo é planejado e infelizmente está dando resultados. Neste difícil panorama existe um renascimento da esfera religiosa. O venezuelano se apega a Deus através da Virgem, porque Deus não deixou a Venezuela. Deus está aqui conosco, sofrendo com aquele que sofre, agindo com aquele que age. Mas, nós venezuelanos devemos perguntar-nos se estamos felizes com esta situação e reagir segundo a resposta da nossa consciência”, conclui.
 

Fonte:


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Comunismo, aqueles "erros da Russia" que fazem prosélitos


GILBERTO ZAPPITELLO

Maio de 2018 se conclui com uma série de celebrações do comunismo: o bicentenário de Marx e os 50 anos de aniversário do episódio de 68. A memória está ainda muito condicionada pela ideologia. Porque é uma “fé”, como nos explica Gilberto Zappitello, autor de A fé no comunismo.


O mês de maio de 2018 se conclui com uma série de celebrações do comunismo: o bicentenário de Marx e os 50 anos do episódio de 68. A memória está ainda muito condicionada pela ideologia, ao ponto de eclipsar, exatamente para fazer um exemplo, outro aniversário de 50 anos, o da primavera de Praga. Ou seja, a grande revolta, mais cultural que política, contra o regime comunista Checoslovaco. O comunismo, de fato, mesmo se historicamente derrotado, mantém ainda a sua hegemonia na memória histórica.

Como já vimos com Kishore Jayabalan, diretor do Instituto Action, o comunismo é ainda um potente "ópio dos intelectuais”, que agrada também aos cristãos. E como já recordamos com o filósofo Dario Antiseri, o pensamento de Marx teve sempre a pretensão de ser uma ciência, mesmo se revelando uma “cruel metafísica”. Hoje La Nuova Bussola Quotidiana encontra Gilberto Zappitelo, autor de La fede nel comunismo (Itaca, 2013), um estudo sobre as origens da mais potente ideologia do século XIX e da sua matriz “religiosa”. Mesmo se ateu e materialista, o comunismo possui de fato muito mais coisas em comum com uma fé irracional e fanática.

Professor Zappitello, quando o Senhor fala de “fé” no comunismo. É possível falar de um verdadeiro e próprio culto, mesmo se ele sempre se definiu como baseado em uma “ciência”?
Sobre o comunismo como religião (laica) existe uma literatura muito vasta. De elementos próprios de uma religião na história do comunismo existem tantos outros. Recordo o “culto da personalidade”, chave de literatura usada por Kruscev para interpretar o fenômeno do stalinismo, e as peregrinações ao túmulo de Lênin para prestar homenagem a seu cadáver, embalsamado como aquele dos antigos faraós. Calcula-se que pelo menos 100 milhões de pessoas participaram destas peregrinações. De comunismo como ciência não se fala mais disso já há tanto tempo.

 O Senhor define o Estado soviético como um Estado confessional ateu. O marxismo foi também definido como uma “anti-Igreja”, uma igreja diretamente alternativa ao Cristianismo. Quais são as características desta Igreja e em que sentido entende atacar diretamente a Igreja de Cristo?
O comunismo realizou uma cadeia de Estados confessionais que não há comparação na história, chegando a mais de 50 por cento da população mundial. Estados confessionais porque o comunismo, na forma marxista-leninista, era doutrina de Estado e porque tiveram como característica a perseguição ao cristianismo. Trata-se da maior perseguição religiosa da história. Na RSFSR e depois na URSS somente os religiosos da Igreja ortodoxa russa que foram assassinados no decorrer de três grandes ondas de perseguição foram em torno de 200 mil, mas se buscava esconder a perseguição com motivações de tipo doutrinal e político como “luta à contrarrevolução”, “luta contra os reacionários” e similares. Deste modo se obtinham duas vantagens: a perseguição não era explicitamente admitida e depois eram eliminados os piores inimigos da nova fé; fé no Homem e no comunismo no sentido de Feuerbach, de Marx,  de Engels, de Lenin e de Stalin. Um componente fundamentalmente desta fé era a imanentização da transcendência. Eric Voegelin fala de re-divinização do poder e de “imanentização do eschaton”.

Existe uma herança direta com as heresias cristãs dos séculos e milênios passados?
Esta tese, muito importante, é sustentada por Norman Cohn, Jacob Talmon, Igor Safarevic e por outros. O próprio Engels estudou as seitas heréticas do período da Reforma. Estes autores consideram que para que estes fenômenos se formem e cheguem a emergir seja necessária uma série de outras causas a contribuir como uma grave e profunda crise social e um clima apocalíptico.

De que modo o pensamento marxista entrou na Igreja católica?
Quando Marx na Crítica do programa di Gotha quis dar uma definição da futura sociedade comunista usou uma frase retirada dos Atos dos Apóstolos. A semelhança entre comunismo e cristianismo, porém é somente aparente. Na realidade, no comunismo está presente um desafio: realizar um mundo melhor em nome do Homem-deus combatendo contra os seguidores de Deus e do Deus-homem; ou seja contra o cristianismo. Portanto, existem no comunismo elementos cristãos juntos a elementos iluministas; o todo por dentro da dialética marxista, a qual é profundamente anticristã (o progresso através da luta e a violência). Para Feuerbach, Marx e Engels o Homem e Deus são inconciliáveis: “Aquilo que é dado ao céu é retirado da terra”.

Também no comunismo existe uma ideia do Apocalipse, ou pelo menos do final dos tempos (final da história). E existe também o equivalente do Juízo?
Nos Manuscritos econômico-filosóficos de 44, Marx fala do comunismo como a plena realização do humano e o cumprimento da história; ou também do final da pré-história e o início da história. Engels, por sua vez, fala do comunismo como passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade. O comunismo constitui ao mesmo tempo o início e o fim dos tempos.

Em Fátima, Nossa Senhora advertiu contra os “erros da Rússia” que se “espalhariam em todo o mundo”. Estes erros existem ainda entre nós?
Creio que a cultura dominante seja ainda muito distante de compreender a importância da história do comunismo; o que este nos ensina sobre a modernidade e, ainda mais, sobre o que está no profundo do homem e que se manifesta nas situações extremas; extremas como aquelas realizadas pelos comunistas no poder. Isto apareceu evidente também no modo como (não) se falou da Revolução russa no ano do seu aniversário (2017). Por enquanto estamos ainda na fase do esquecimento, das meias-verdades e das censuras. Para compreender a história do comunismo é preciso pelo menos superar a cultura do antifascismo e aquela do 68. Provavelmente serão necessárias gerações. Pessoalmente estou convencido de que a história do comunismo revele a verdade do cristianismo sobre o homem; o mal que existe nele, mas também o seu desejo de salvação e de redenção.