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terça-feira, 2 de abril de 2019

HISTÓRIA DE UM PEQUENO TÚMULO



 Anônimo

“Não há pulsação”.        
 
Espera de não ouvir jamais aquelas palavras.

E em vez disso, em um momento eu mergulhei de volta no tempo.

 Como desta vez, também naquele tempo era o mês de janeiro, sentia frio, um frio não natural para considerar, e me sentia dispersa sobre aquele pequeno leito. Tinha vontade somente de procurar os olhos de meu marido e os seus braços. “Senhora, isso sempre acontece...”, “não se deve chorar por estas coisas...”, era pequeno, menor do que deveria ter sido, existia algo que não funcionava, foi melhor assim...”. desta vez, muitas palavras me foram poupadas. Em compensação, os olhares de compaixão se tonaram vidrados quando disse, com voz firme: “Gostaria de fazer a solicitação de sepultamento”.

“Não acredito que lhe será possível”.

“Sim, o é. Existe a lei e o peço oficialmente”. O rosto do meu marido era o único, naquele grupo de rostos presentes diante do ultrassom, que na dor manifestava a minha mesma resolução: ‘se informem e depois me façam saber, agora o levo para casa’, as suas decisivas palavras.

A lei italiana permite às famílias de escolher o sepultamento mesmo com menos de 20 semanas de gestação, mediante solicitação dos pais (D.P.R. 10/09/1990 n. 285 art. 7). Há sete anos não sabia disso, e quando fiz a mesma solicitação me contentei com a primeira resposta... Deus sabe quantas lágrimas quando me dei conta que somente por ignorância meu filho tinha sido jogado fora como “lixo hospitalar”. Em poucas semanas descobri que esperava um menino, você sonha com isso, você pensa assim: faz parte da sua vida.  E se a espera é interrompida assim tão de repente acontece que quem está ao teu lado não te pode ajudar, porque talvez nem tenha tido tempo de saber que esperavas um filho... é assim difícil curar a ferida do luto, quando parece que a tua alegria não tenha existido jamais, que tudo tenha desaparecido naquela sala operatória, terminado quem sabe onde, longe do teu ventre e dos teus braços... Para a mãe e para o casal que imaginou o filho por semanas, é muito importante ter a possibilidade de defender a dignidade do seu corpinho, por mais que seja somente de poucos milímetros, mesmo no último ato de saudação final. A morte não muda a sua picada dolorosa com o sepultamento, mas o sofrimento pode assumir outro significado quando pode ser enfrentada no respeito pelos atos de piedade que o nosso coração sugere.

Há sete anos tudo isso nos foi negado. Mas desta vez insistimos, porque sabíamos e não tínhamos a intenção de nos deixar enganar. E no final, diante de um artigo de lei escrito em preto e branco, foram eles que tiveram que ceder. E depois da suficiência e descrença dos médicos, descansamos no olhar compassivo do agente funerário, evidentemente acostumado mais do que o primeiro a distinguir a vida e a morte.

E a nossa cruz se transformou: uma dor “que não se pode descrever” assumiu os contornos da dor por uma perda de um filho. Porque quase ninguém compreende, esta é uma dor que não se pode dizer. Parece que não “esteja bem” chorar, porque se se pode chorar, e sepultar, e rezar... então se torna evidente que aquele é um filho e não um amontoado de células, uma criança e não um lixo hospitalar: não se pode mais negar que seja uma alma que subiu ao céu. É esta passagem que ninguém quer fazer. E por isso não o dizem. Despedimos-nos dele em uma tarde muito fria. O sacerdote abençoou uma caixinha de madeira minúscula, que os nossos filhos, por sua vez, traziam nas mãos. Um vaso de flores roxas, uma cruz de madeira, com a data e o nome. Em relação à outra vez, um epílogo diferente, que cheira a Paraíso. 

As famílias devem saber que, se acontece aquilo que ninguém deseja jamais para si, a lei existe, e deve ser aplicada: para que nenhuma criança perca, junto com a vida, também a dignidade de um túmulo, desde o momento que é sentimento da Igreja de sempre, que a alma é infusa por Deus no momento da concepção.

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